O conceito “Uma Só Saúde” aplicado à Leptospirose Bovina

O conceito de Saúde Animal tem sofrido uma evolução positiva evidente e as doenças infecciosas encontram-se actualmente no topo das preocupações de prevenção e controlo.1 Nos últimos 20 anos, 60,3% das doenças infecciosas emergentes diagnosticadas nos humanos foram causadas por agentes zoonóticos, a grande maioria com distribuição mundial.2 Estes agentes apresentam um forte impacto na saúde pública, não só pela morbilidade e mortalidade que podem causar, mas também devido a factores socioeconómicos inerentes à possibilidade de infeção humana, o que faz com que as sociedades actuais reconheçam agora a necessidade de levar a preocupação com a saúde animal ainda mais além, encarando os animais, o ambiente e os humanos como um todo – e a sua saúde como uma só –. Esta é uma preocupação em crescendo nas organizações governamentais, médicas, veterinárias e científicas, assumindo-se, todavia, a existência de défices na monotorização da interface Homem-animal no que se refere às doenças infecciosas emergentes e a necessidade de identificar e controlar as zoonoses no âmbito dessa visão “uma só saúde”.1 Contudo, é fácil perceber que este controlo de doenças provocadas por agentes que se movimentam entre animais e humanos constitui, para nós, um verdadeiro desafio.

Os ungulados, onde se incluem os bovinos, são os principais hospedeiros não humanos destes agentes2 e, com a intensificação da produção de Leite e carne, o Homem está, cada vez mais em contacto com um maior número de bovinos e, portanto, com um maior número de agentes passíveis de lhes serem transmitidos, directamente ou através de vectores. Assim sendo, os grupos de maior susceptibilidade são os produtores e tratadores destes animais, os veterinários, os funcionários de matadouros e laboratórios e as pessoas que consomem carnes mal cozidas, Leite cru não pasteurizado e seus derivados.3

Entre os referidos agentes passíveis de se transmitirem dos animais ao homem, encontra-se a bactéria Leptospira spp., capaz de provocar doença – leptospirose – em todos os mamíferos domésticos e silváticos, tendo também já sido isolada em répteis e aves.4 É actualmente considerada um problema de saúde pública re-emergente, constituindo um excelente exemplo de “uma só saúde”, uma vez que para melhor entender e controlar esta doença, torna-se necessário considerar a relação entre Homem, animais e ecossistema.5 Nas regiões temperadas, a doença tem, por esta razão, um carácter mais sazonal, com picos frequentes no Outono6 e, por vezes, na Primavera.

O género Leptospira spp. inclui várias espécies, umas patogénicas (nocivas) para os animais, outras não. As espécies patogénicas apresentam, por sua vez, “variedades”, chamadas sorovares, adaptadas aos seus hospedeiros de manutenção, mas que podem infetar outros animais, de forma acidental (hospedeiros acidentais). Quando as sorovares adaptadas infetam os seus hospedeiros de manutenção, a leptospirose manifesta-se, na maioria das situações, de uma forma discreta. Contudo, quando infectam hospedeiros acidentais (de espécie distinta), provocam manifestações clínicas, normalmente mais graves e evidentes.

Em qualquer dos casos, após a infeção, segue-se um período de incubação mais ou menos longo (de 4 a 10 dias), a partir do qual as leptospiras invadem a corrente sanguínea, dando lugar às manifestações agudas da doença. De seguida, ao colonizarem os órgãos para os quais têm mais afinidade (rim, fígado, úbere, útero) podem estabelecer uma infeção crónica, com excreção da bactéria de forma contínua ou intermitente (mais frequente nas sorovares adaptadas aos hospedeiros – sorovar Hardjo, no caso dos bovinos) ou, dar origem à morte, de forma, muitas vezes, súbita (no caso das sorovares não adaptadas) ou ainda ao estabelecimento de imunidade (leptospiras menos agressivas ou animais capazes de responder à infeção).7

A leptospirose é mantida na natureza devido à infeção crónica dos hospedeiros de manutenção.6 No que se refere à L.Hardjo, sorovar adaptada aos bovinos, os animais podem infectar-se assim que a imunidade materna (defesas transmitidas pelo colostro) diminui e permanecer cronicamente infectados durante toda a vida, armazenando as leptospiras nos rins e trato genital (masculino e feminino) e excretando-as, de forma contínua ou intermitente, durante dias, meses ou anos.8

Assim sendo, as características da infeção variam consoante esta ocorre por uma Leptospira adaptada ao hospedeiro infectado ou se, pelo contrário, se deve a uma sorovar não adaptada a esse hospedeiro (Tabela 1).

Tabela 1 – Características da leptospirose nos bovinos consoante o tipo de sorovar envolvida (adaptado de 9)

Nos bovinos, a manifestação clínica mais evidente e frequentemente observada é a provocada por leptospiras não adaptadas a esta espécie. À necrópsia dos animais mortos devido a esta infeção, observa-se icterícia (tonalidade amarela), zonas hemorrágicas e, se a bexiga tiver urina, é frequente esta apresentar cor castanha, por conter hemoglobina, proveniente da destruição massiva dos glóbulos vermelhos.9

O diagnóstico da leptospirose em bovinos deve envolver os meios necessários para se concluir sobre as sorovares envolvidas, pois este facto é importante na decisão das medidas de controlo a estabelecer. É fundamental a consulta do Médico Veterinário assistente para efectuar este diagnóstico e propor as medidas de controlo mais adequadas.
O impacto económico da leptospirose nas explorações de bovinos também é mais ou menos evidente, consoante a sorovar envolvida na infeção (adaptada ou não adaptada a estes animais). Contudo, qualquer que seja o panorama, as perdas económicas serão, sem dúvida, avultadas, uma vez que esta doença pode resultar na diminuição do número de vitelos nascidos ou desmamados, na viabilidade das gestações precoces e no intervalo entre partos (efeito frequente quando a infeção por L.Hardjo se estabelece e permanece na exploração), na diminuição da produção de Leite, com consequentes perdas de produção, em custos envolvidos nos tratamentos, morte e refugo involuntário de animais e, naturalmente, no risco que a doença envolve para os humanos.7

A prevalência desta doença nos Humanos tem vindo a aumentar, nos meios subdesenvolvidos devido à proximidade dos roedores e o Homem, e nos países desenvolvidos devido à urbanização dos meios rurais, relacionada com o crescimento da população mundial e com a crise económica que alguns países atravessam nos últimos anos, o que aumenta a proximidade entre as pessoas e os animais (domésticos e silváticos). A estes factores, junta-se o fenómeno do aquecimento global que tem conduzido a alterações climáticas (calor e humidade) favoráveis à sobrevivência desta bactéria no meio ambiente e ao aumento das viagens efectuadas por pessoas e por animais. Não obstante, a infeção do Homem com estes agentes é uma ocorrência acidental, sendo a prevalência de serovares de Leptospira spp. na população humana um reflexo da sua prevalência na população animal.10 Nos humanos, a sintomatologia assemelha-se a uma gripe, de duração prolongada ou recorrente (forma simples; mais frequente nos casos de infeção pela serovar Hardjo), podendo evoluir para icterícia, neuropatias e síndromes cardiovasculares (Síndrome de Weil) e, em casos extremos, conduzir à morte.

A infeção dos humanos e dos restantes animais ocorre devido ao contacto direto das leptospiras contidas na urina, fetos abortados, corrimentos vaginais e uterinos e sémen com feridas ou através da ingestão de água contaminada ou Leite não pasteurizado.1 Os bovinos constituem um dos principais agentes de transmissão das leptospiras ao Homem.11
Portugal não é exceção no aumento da prevalência da Leptospirose: o número de casos declarados tem vindo a crescer, nos últimos anos, sendo, no nosso país, sobretudo uma doença de carácter ocupacional (i.e. que afecta principalmente os manipuladores/tratadores de animais). Não existe, em Portugal, vacina para a Leptospirose humana, pelo que a única forma de se prevenir esta infeção nos seres humanos é através da vacinação dos animais e adopção de estritas medidas de biossegurança, que, no caso das explorações de bovinos se encontram resumidas na Tabela 2.

Tabela 2 – Medidas de biossegurança para o controlo da leptospirose em bovinos (adaptado de 12)

Em algumas explorações leiteiras, a disseminação da leptospirose está muitas vezes relacionada com a passagem das vacas pela sala de ordenha, local que reúne condições de temperatura e humidade propícias à formação de aerossóis a partir da urina infetada (Figura 1).

Figura 1 – Sala de ordenha: local de risco de transmissão entre animais e de potencial perigo zoonótico de leptospirose

Fonte:
Arquivo Pfizer

A correta identificação das serovares envolvidas e respetivos hospedeiros de manutenção é essencial para o estabelecimento de medidas adequadas5 que, encontram na vacinação uma das principais ferramentas de controlo. A vacinação dos bovinos, quando relevante, deve ser realizada a todos os animais da exploração, de forma preventiva e os animais devem ser vacinados o mais jovens possíveis13, de acordo com as instruções da vacina indicada pelo veterinário assistente.

A prevenção vacinal da leptospirose bovina, direcionada contra as sorovares relevantes deve, sem dúvida, ser encarada como um hábito, nos casos em que já houve registo de surtos provocados por esta bactéria. Uma vez que a leptospirose afecta as principais fontes de rendimento das explorações de bovinos – a fertilidade e a produção de Leite e, no caso das explorações de aptidão cárnica, o crescimento dos bezerros – a abordagem preventiva é claramente a que melhor se foca na produtividade das explorações afectadas ou em risco, evitando a abordagem de urgência, frequente quando há surtos, mas sempre de maior risco para os animais e para todos os que com eles trabalham.

É, por todas estas razões, notória a necessidade de protegermos os animais, no sentido de preservarmos o nosso futuro – é neles que a visão “uma só saúde” tem o ponto de partida para metas que são o futuro económico das explorações e a saúde das populações.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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TEXTO
MARISA BERNADINO
Médica Veterinária
ZOETIS, AREA TECHNICAL MANAGER – RUMINANTS

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